Desafios no manejo nutricional da cana: potássio, magnésio e enxofre

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desafios no manejo nutricional da cana

A produtividade da lavoura da cana-de-açúcar, bem como de outras culturas, depende muito da adequação do manejo e da fertilidade do solo. Para o produtor rural, o manejo nutricional é um grande desafio e envolve a necessidade de muito conhecimento técnico. Por conta da importância, a APagri trouxe para debate durante o 1º Encontro com Agroespecialistas, realizado online em março, exatamente o tema sobre os desafios no manejo nutricional da cana, com foco em potássio, magnésio e enxofre como nutrientes fundamentais.  

O debate está disponível no canal da APagri no Youtube, com informações bastante relevantes. Como complemento, trago informações sobre as alterações recentes em tabelas lançadas pelos órgãos agronômicos para orientação a consultores e produtores rurais, referentes à adubação da lavoura da cana com base nesses três nutrientes.  

Esses órgãos atualizam os dados sempre que há alterações consideráveis a serem observadas no trabalho do manejo do solo, portanto, não é com muita frequência. Para se ter uma ideia, uma das principais tabelas é o Boletim Técnico 100, elaborado pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que trouxe mudanças significativas desde a última publicação, na década de 1990. O atual boletim ainda não foi publicado, mas já foi disponibilizado aos profissionais de agronomia, por ser um parâmetro importante ao trabalho. 

Novos parâmetros para os desafios no manejo nutricional da cana

Segundo os dados mais recentes do Boletim 100, para o potássio os parâmetros de demanda na cana-de-açúcar são altos, chegando a 220 kg/ha de K2O, onde 60 – 80 kg/ha de K2O são aplicados no plantio da cana e o restante na cobertura no quebra-lombo. Ou seja, subiu a régua em relação ao boletim anterior!  

Para a cana soca, o novo Boletim Técnico 100 apresenta mudanças significativas desde a última publicação. Também traz novidades, variando de 100 a 200 kg/ha de K2O para a faixa inicial de fertilidade do solo. A relação K2O/N atualmente é de 1,4/1. 

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Para produtores que utilizavam fórmulas, a mudança das tradicionais formulações –  por exemplo: 20-05-20 ou 25-00-25 ou 26-00-22 – agora usarão 20-07-28 ou 22-00-30 ou ainda 22-10-22. Ou seja, maior quantidade de K2O em relação a N, obviamente que em função de amostragens e análises de solo. 

Também percebemos a mudança em relação ao fósforo. Agora, só mesmo os solos mais férteis (acima de 40 mg/dm3 em resina) não têm recomendação de reposição de P2O5 em cana soca. 

Sobre o nitrogênio, o professor Rafael Otto (2019), da Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/ Universidade de São Paulo), em Piracicaba-SP, cita que a relação N/K2O pode chegar a 1:1,8. O mesmo autor, em material publicado pelo Agronomy Journal (2020), afirma ser possível reduzir a dose de N para 0,8 a 1Kg/t de produtividade esperada. 

Em relação ao magnésio e enxofre, principalmente o primeiro, há dois trabalhos publicados com títulos que já nos remetem à importância do tema:  

  • Magnésio, o elemento esquecido na produção agrícola, de autoria de Cakmak (2010), Better Crops, destacando que “a nutrição com magnésio é frequentemente negligenciada e sua falta afeta o crescimento das plantas”;
  • Macronutrientes secundários: estamos dando a devida atenção?, trabalho apresentado em 2017 no 8º Simpósio de Tecnologia de Produção de Cana-de-açúcar, pelo professor Godofredo César Vitti, também da Esalq/USP, e outros. 

O magnésio está presente no centro da molécula de clorofila, ou seja, na “fábrica verde”, e exerce funções essenciais, tais como: constituinte da molécula da clorofila; ativador de enzimas relacionadas ao metabolismo de gorduras e carboidratos; absorção e metabolismo do fósforo. 

Plantas em deficiência de suprimento de magnésio são mais suscetíveis ao estresse térmico, segundo Mengutay e outros (2012). Portanto, é clara a importância do elemento Mg, sendo essencial sua correta manutenção em termos de disponibilidade. 

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O fornecimento dos macronutrientes secundários (Ca, Mg e S) normalmente são supridos por calcário e gesso. Dados mais recentes nas relações de exportação em kg/100t (Oliveira, 2011) indicam balanço de CaO/MgO de 0,94, porém as relações médias de CaO/MgO dos corretivos são no mínimo de balanço 1,72, apontando tendência de desequilíbrio, principalmente se houver altas de doses de K2O, que são frequentes em  áreas de aplicação sem critério para vinhaça.

Resumindo: toda atenção deve ser dispensada na compra de corretivos, verificando os níveis de Mg no solo para correção, por exemplo, com óxido de Mg via solo ou Mg foliar.  

Deficiência de enxofre no solo pode causar perda de produtividade. O enxofre participa na fixação e metabolismo de nitrogênio, conferindo, entre outros papéis, o de resistência ao frio e à seca no canavial. O gesso tradicionalmente é fonte de enxofre e também é condicionador de sub-superfície. 

A APagri utiliza uma tabela própria para recomendação, que leva em conta diversos critérios, elaborada com base nos boletins dos órgãos de informações oficiais. Os critérios de recomendação de gesso mais utilizados pela APagri, além do algoritmo próprio, é a fórmula de Vitti e outros (2008) e o critério de Caires e Guimarães (2018). Nelas, busca-se 60% da CTCef (Capacidade de Troca de Cations efetiva) da camada de 20-40cm. Os autores recomendam aplicação de gesso agrícola somente em solos com alto teor de Mg nas camadas superficiais. 

Além de gesso, pode ser utilizado S elementar – por exemplo, enxofre pastilhado. A fórmula de Vitti e outros (2017), cita que “fontes alternativas de S na forma elementar, além de refletir em maiores teores de enxofre no solo por mais tempo, também têm resultado em maior aumento na produtividade”. 

Encontro com Agroespecialistas

O debate sobre Desafios no manejo nutricional da cana-de-açúcar: potássio, magnésio e enxofre contou com a participação do doutor em solos e nutrição de plantas e produtor rural de cana e soja Gaspar Henrique Korndörfer, do engenheiro agrônomo e gerente de produção agrícola Michel Fernandes, sob a mediação do agrônomo Luís Fernando Magron Zanuncio, consultor técnico da APagri SP/MT.  

Os três trouxeram informações importantes sobre o tema, inclusive sobre os fatores que podem levar ao empobrecimento dos nutrientes no solo.

*O engenheiro agrônomo

Norwaldo Mello é consultor

da APagri-SP/MG,

sediado em Uberaba-MG.

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